Notícia

O samba vai sair

O samba vai sair, mesmo que uns não queiram, vai vencer a cidade pra se derramar na avenida sem chororô do bloco contrário

A crônica da festa de Momo não quer sair da gaveta. São anos nestas páginas tecendo o fio da palavra quando o carnaval dá as caras e hoje aquele grito teima em não fazer barulho. A baqueta trocou de mal com o tamborim, o surdo 1 emperrou nas mãos do ritmista e a rainha dispensa a coroa diante da bateria. O carnaval parece se guardar pro ano que vem.

Faço da minha rua mirada e seu nome é silêncio. Temo que a avenida do samba invente de copiar esse andar de passos fantasmas do meu bairro. A cidade dorme, mas meu peito não. A cidade tem medo enquanto meu coração preserva intacta sua irmandade pelo ritmo preto, capixaba, brasileiro. A cidade é um samba tentando se fazer enredo.

O cronista, folião de primeira hora, não é do tipo que rasga a fantasia. Nenhuma delas. Porque o sonho é meu arroz com feijão em tempos bicudos, meu prato de resistência. Porque o espírito sambista não dá meia volta com a escola no auge da avenida. Se recua a bateria, ele sabe seguir adiante atrás dos pontos em evolução. Sambista não retrocede, avança. Sambista enfrenta polícia, bandido, autoridades com a arma da canção e o redemoinho do quadril.

Guerra não é o nosso nome. O Grito do Munch não é o quadro que escolhemos pra aplacar o medo. Na avenida do samba não tem Guernica, porque aqui é bandeira branca, amor, eu peço paz. A tristeza é senhora desde que o samba é samba, isso aprendemos sem precisão de cartilha, de modo que o combate é por preservar a alegria e retirá-la sob os escombros do cortejo dos mortos.

O samba vai sair, mesmo que uns não queiram, vai vencer a cidade pra se derramar na avenida sem chororô do bloco contrário. O terno com o qual brincarei de rei na escola da coroa, a sexagenária Novo Império, me convida do cabide antes da hora, ansioso pelo sinal verde. Lá estaremos, pés no cimento como se estrelas em repouso fossem.

É dia de o céu descer ao som dos batuques e se fantasiar de Via Láctea. Definitivamente, é hoje o dia!