Notícia

Censura que eu gamo

A censura continua sendo o mais vil dos assassinatos. Ela é cúmplice de qualquer crime. A liberdade é tão insubstituível quanto um abridor de latas ou saca-rolhas

Respeitável público, desde a tristemente célebre Dona Solange, a primeira-dama da censura no governo militar, que não se mandava proibir qualquer notícia. Pois agorinha mesmo o juiz Hilmar Raposo Filho, a mando de Michel Temer, proibiu os jornais “O Globo” e “Folha de S. Paulo” de noticiarem a arenga entre um hacker idiota, como todos, e a primeira-dama desta República tupiniquim, Marcela Temer. O Tribunal de Justiça do Distrito Federal suspendeu a decisão nesta quarta-feira, 15.

A censura continua sendo o mais vil dos assassinatos. Ela é cúmplice de qualquer crime. Um dos jornais recorreu com o irrefutável argumento de que não é permitido, em uma democracia, esconder seja lá o que for. E limitou-se a reproduzir fatos de interesse público, aliás, função única de um veículo de comunicação.

Um certo Gustavo Vale saiu-se com frase feita: “confundiram informação com violação de privacidade”. Lembrou-me o jargão que justificaria os ilustres intelectuóides do golpe de 64: “não confundam liberdade com libertinagem”. Não é genial?

O país em cinzas e o afável presidente dando uma de Eike Batista com Luma de Oliveira e sua coleirinha carnavalesca! Voltando à censura dos dois jornais, a punição teria que ser a posteriori, se fosse o caso.

No apogeu da ditadura, no vibrante jornal “O Diário”, recebíamos todas as tardes, enrustidos em um Gordini descaracterizado, a visita da polícia com uma série de laudas sem assinatura proibindo a publicação disso ou daquilo, tipo assim: “Fica proibida a divulgação da morte do estudante Fulano de Tal em luta com as forças governamentais”. Sem assinatura ou qualquer outra identificação.

Alguém teve a ideia de colar as “notícias” na parede. Pra quê? O povo que passava e olhava pela janela da redação queria saber das coisas enterradas. E ficavam sabendo. Esse fortuito evento espalhou-se Bar Britz adentro e logo se tornou a publicação mais verdadeira. Era a publicação mais lida do pedaço.

Em uma bela tarde de sexta-feira só ouvimos a freada do Gordini.

Saíram quatro delicados senhores e sem qualquer censura arrancaram sem qualquer sentimento todo o material acumulado em três meses. Isso não se faz. Toda censura esconde o mal e é sempre ridícula.

Com licença da palavra, o subsecretário de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Gustavo do Vale Rocha, assinou a ação contra a publicação de “O Globo” e da “Folha”. Não se pode negar sua militância no setor. Moveu um monte de processos contra jornalistas que escreveram sobre os truques mambembes do Eduardo Cunha.

Meninos e meninas, a liberdade é tão insubstituível quanto um abridor de latas ou um saca-rolhas.