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Eles preferem filmes dublados

Alvo de preconceitos, os filmes dublados têm fãs e marcaram muitas gerações

Klaywin Mutz gosta de filmes dublados
Klaywin Mutz gosta de filmes dublados
Foto: Divulgação

Foi-se o tempo que ir ao cinema conferir uma estreia era sinônimo de passar duas horas lendo legendas. Basta dar uma olhada na página 2 deste suplemento e perceber a quantidade de salas estão exibindo filmes em cópias dubladas.

É claro que essa transformação não aconteceu de uma hora pra outra. Até alguns anos atrás, os filmes dublados eram exclusivamente produtos voltados para as TVs. Já nas telonas, as únicas produções desse tipo que eram oferecidas ao público limitavam-se a filmes infantis e desenhos animados.

Alvo de preconceito de muitos, as dublagens têm seus fãs. Profissionais que emprestam suas vozes para atores famosos podem passar anônimos em público, mas suas vozes são famosas.

Dubladores brasileiros como Mário Jorge de Andrade (Eddie Murphy), André Filho (Sylvester Stallone), Selma Lopez (Whoopi Goldberg), Newton da Matta (Bruce Willis) e Isaac Bardavid (Wolverine, tanto nos desenhos quanto nos filmes) demonstram o quanto uma voz pode marcar.

“Clubinho”

Parte da turma que curte filmes dublados, a assistente de departamento pessoal Priscilla Gama tem 29 anos.

“Quando preciso ler legendas, não consigo prestar atenção no filme. Por isso prefiro quando é dublado”, disse a fã de filmes de comédia e heróis. “Se eu for ao cinema e só tiver legendado, eu até vejo, mas eu prefiro dublado”, completa.

Outro motivo que aproxima o telespectador dos filmes dublados e sem legendas é a falta de familiaridade com idiomas estrangeiros.

Foi por isso que o escrevente de cartório Klaywin Mutz passou a maior parte dos seus 25 anos assistindo a filmes dublados.

“Sempre prefiro dublado. Não conheço muito de língua estrangeira e acabo me confundindo. Virei até motivo de chacota dos amigos”, brinca.

Klaywin, porém, às vezes se irrita com dublagens. Ele acha desconfortável, por exemplo, quando o dublador de um personagem de que ele gosta faz a voz de outro ator em outro filme.

“Fico chateado quando vejo algumas dublagens com a voz do Gandalf (personagem de “Senhor dos Aneis”) ou do Adam Sandler (dublado por Alexandre Moreno)”, explica Mutz.

Fã do seriado “The Walking Dead”, exibido pela FOX aos domingos, ele conta que assiste à cada episódio duas vezes.

“Assisto à série na primeira exibição, domingo, legendada. Na segunda-feira ela é exibida novamente, mas dublada, aí assisto a ela de novo”, diz.

Série favorita de Klaywin, “The Walking Dead”, tem o seu vilão atual, Negan, dublado por Cassius Romero, que nos explica como funciona todo o processo.

“O episódio chega com antecedência de uma semana. Aí é todo mundo gravando e uma correria para dar certo”, conta ele sobre os bastidores da dublagem da série de zumbis que é exibida no Brasil no mesmo dia dos EUA.

Romero tem 50 anos, 26 deles como dublador e, durante esse tempo, já emprestou sua voz para personagens como Rambo (Sylvester Stallone) nos três primeiro filmes, Austin Powers (Mike Meyers) e o gigante de “O Bom Gigante Amigo”, animação recente de Steven Spielberg.

Para ele, ainda há preconceito em relação à profissão. “A dublagem é feita com para pessoas que não conseguem assistir legendas, como idosos, deficientes visuais e crianças”, explica.

Confira abaixo mais sobre a dublagem de filmes e séries, uma tendência de mercado.

Com grande demanda, mercado de dublagem se consolida no país

Há mais ou menos 50 anos o métier de Jorge Barcellos tem a ver com a sua voz. Do início como locutor, passando por dublador – ele emprestou sua voz, inclusive, para o personagem Doutor Egon Spengler do filme “Os Caça Fantasmas” – e hoje, aos 72 anos, é diretor artístico da Sigma, empresa de dublagem em São Paulo.

Atualmente, os profissionais da Sigma responsáveis pelas dublagens dividem-se em oito estúdios. Por lá, eles trabalham tanto com seriados como “Um Drink no Inferno” e “The Walking Dead” quanto novelas mexicanas, venezuelanas e turcas que serão exportadas para a Angola e Moçambique. “Nos últimos tempos expandiu-se o campo da dublagem”, ressalta Barcellos.

Para ele, essa expansão se deu pelo acesso a serviços de TV por assinatura pelas classes mais baixas. “Chegou um momento em que os assinantes não eram mais elitizados. E essas classes sociais estavam acostumadas com a televisão que tinha filmes dublados”, destaca.

Cineasta e diretor do site “Filme B”, Paulo Sérgio Almeida também enxerga nisso tudo uma oportunidade do mercado estar presente em regiões antes não atingidas.

“Os filmes blockbuster estavam se distanciando do público C e D porque ele é globalizado”, introduz Almeida. “Ele pega todas as tendências modernas e uma delas é a edição rápida. Com isso, as legendas ficam com pouca duração na tela, o que dificulta para as pessoas que não têm hábito de lê-las”, esclarece.

Futuro

Whoopi Goldberg
Whoopi Goldberg
Foto: Divulgação

Ainda de acordo com Paulo Sérgio, não há dúvidas da consolidação do mercado para filmes dublados. “Quem não dubla filme tem uma bilheteria bem menor”, reconhece, prevendo para o futuro algo que já acontece: uma segmentação de espaços que oferecem apenas filmes dublados ou legendados.

“Cada vez mais a legendagem vai se concentrar nos filmes especiais, de arte, candidatos ao Oscar... Acho que no futuro vamos ficar igual alguns países da Europa: 80% ou 90% filmes dublados”, aposta Paulo.

Pelo o exposto, não seria de se estranhar que o ramo tivesse uma injeção de novos profissionais. É bom que se diga, porém, que para ser dublador é preciso, antes de tudo, ser ator.

“A dublagem é uma das funções do ator, que pode trabalhar com teatro, televisão, rádio...”, diz Jorge Barcellos, que se empolga com os novos profissionais que chegam ao mercado.

“Os dubladores mais antigos, como eu, tinham uma qualidade. Mas, talvez, não a formação destes jovens que cantam e são cuidadosos com suas carreiras”, elogia.